As "cidades do futuro" pretendem ser verdes, sustentáveis, inteligentes e low cost. Isto já existe. Chama-se "Campo". Frederico Lucas

Wednesday, October 04, 2006

Actores discretos

«O VALOR patrimonial do Vale do Côa é incomensurável», diz José Ribeiro, 58 anos, professor de História há 23 anos na Escola Secundária de Foz Côa e um dos protagonistas da «batalha» entre arte rupestre e barragem. Um célebre acampamento em defesa das gravuras, realizado na semana da Páscoa de 1995 - que terá mobilizado cerca de 2500 pessoas, na maioria estudantes, vindas inclusivamente de Salamanca e de Sanabria, Espanha -, foi apenas uma das acções em que participou apaixonadamente. «Era importante que a defesa do património tivesse gerado desenvolvimento económico», lamenta, dando voz a um sentimento muito partilhado em Foz Côa: «Sentimo-nos como índios dominados por vontades que nos ultrapassam. O interior continua esquecido».

Adriano Ferreira observa com bonomia, aos 56 anos, o «Verão Quente» do Côa. Antigo funcionário de uma conservatória, mas pescador intimamente relacionado com cada palmo da região, tornou-se outro dos indefectíveis do património. Quando viu as primeiras imagens da Canada do Inferno na TV, recordou-se de sítios semelhantes. Foi nada menos que o descobridor das gravuras da Penascosa e de gravuras na Quinta da Barca e conduziu os investigadores a umas e outras. Sorri ao contar como aparece na história científica das descobertas citado como «popular»: «Popular? E eu a pensar que tinha um nome».

Médico, candidato à Câmara de Foz Côa em 1989 e 93, vereador independente nas listas do PS até 1997, dono de uma pastelaria com dulcíssimos produtos regionais: António Sotero, 52 anos, é uma figura. Esteve na preparação da visita de António Guterres, ainda secretário-geral do PS, ao Côa. «Conspirou» alegremente, levou várias personalidades a ver as gravuras, pagou jantares (muitos) a jornalistas e investigadores, expediu cartas, extenuou-se em contactos.

Como clínico, observa «o esvaziamento das aldeias do concelho e a falta de políticas para contrariar a desertificação». Membro da assembleia municipal desde as últimas autárquicas (a Câmara é PS), sonhou um destino diferente para os rabiscos do Paleolítico. «Pensei que podia ser o ponto de desenvolvimento da região. Mas puseram os lobos a guardar as ovelhas».

José Ribeiro, Adriano Ferreira e António Sotero são algumas das pessoas com uma acção pelo menos tão importante como a dos historiadores no desfecho da polémica pela preservação das gravuras. O seu papel pode ser equiparado ao de Mila Simões de Abreu (no alerta e na mobilização que provocou) e de João Zilhão (o arqueólogo que caucionou, com brilhantismo, a antiguidade das gravuras). Geralmente, os artigos científicos omitem-nas ou diminuem o seu papel, como se fossem apenas o instrumento que guia a sabedoria dos investigadores."


in Semanário Expresso, A.H.

5 comments:

mao morto said...

Não conhecendo muito bem a região, o desenvolvimento - ou a falta dele - recente da mesma no que concerne ao parque Arqueológico, parece-me que se trata de um caso das dificuldades com que se debatem as "novas formas de turismo" no interior. Pretende-se um turismo de qualidade, evitando a massificação; mas com poucos turistas o volume de receitas e as oportunidades de dinamizar localmente a economia - leia-se infraestruturas de apoio à actividade turística "caem por terra". Preserva-se o valiosíssimo património, mas o impacto do turismo na região - deprimida - não é o esperado.
Acerca da omissão dos agentes locais por parte da imprensa, sobretudo televisiva, isso reflecte, a meu ver, a atitude de bonomia ou condescendência com que por vezes os media olham para o interior: algo de exótico e pitoresco, como se se tratasse de uma realidade paralela, "um outro país".

mao morto said...

Numa segunda análise, na segunda parte do comentário anterior, "a bota não bate com a perdigota" - apesar de se notar bastas vezes a tal atitude a que aludi, isso não está directamente relacionado com o que é reportado no artigo.

Frederico said...

:-)

Foi recentemente contratado ao Prof. Augusto Mateus o Plano Estratégico para o Turismo no Vale do Côa. Vamos a ver no que dá!

Obrigado pela visita.

al cardoso said...

Parece que foi finalmente aprovado o projecto para o bendito museu arqueologico do Coa, mas como andam as coisas com falta de dinheiro e principalmente vontades e porque Foz coa fica no interior e nao em Lisboa, nao sei se ainda o verei em minha vida!

Um abraco Frederico, ja ha tempos que o nao vejo pelos meus sitios.

Frederico said...

:-)

O seu blogue é também a minha casa!


Um forte abraço