As "cidades do futuro" pretendem ser verdes, sustentáveis, inteligentes e low cost. Isto já existe. Chama-se "Campo". Frederico Lucas

Tuesday, December 28, 2010

Portela: 14.000.000 Passageiros

O Aeroporto da Portela acaba de atingir a marca dos 14.000.000 de passageiros anuais, pela primeira vez na sua história.

Para isso muito contribuiu a estratégia de abrir esse aeroporto às LowCost, passo inevitavel nos novos modelos de dinamização do transporte aéreo nas capitais europeias.

Ao contrário de Londres, que separa o seu tráfego aéreo por vários aeroportos, Lisboa e Madrid concentram na mesma infra estrutura as companhias de bandeira e as LowCost.

Trata-se de uma solução mais onerosa na construção mas com algumas economias operacionais para as companhias aéreas.

Em Portugal, o Aeroporto Francisco Sá Carneiro concluiu a sua remodelação em 2006, sendo hoje uma referência europeia nos indíces de conforto ao passageiro.

Com um investimento total de 500M euros, 10% do valor previsto para o Novo Aeroporto de Alcochete, este aeroporto comportará 6,5M passageiros anuais.

Sunday, December 12, 2010

Economia DNS: Nova Perspectiva Territorial

Hoje as organizações têm um endereço web e os seus colaboradores vivem onde mais lhes interessar.

São centenas de estórias que já escutei de instaladores residenciais de internet que andaram no sul e no norte do nosso país a instalar a internet em casas de grandes “carolas”, isto é, investigadores e empresários que operam virtualmente em Londres, Dubai ou Frankfurt conciliando essa actividade com a residência num país acolhedor e solarengo como é Portugal.
Aqui vivem, aqui educam os seus filhos, aqui pagam impostos, aqui consomem, aqui adquirem as suas casas.
Mas se recebermos destes um cartão de visita, teremos uma morada postal e um telefone do mercado onde operam. E um endereço web que é o “head-office” empresarial!

E porque motivo escolheram estes pioneiros da Economia DNS o nosso país para viver?
Seremos a primeira Aldeia Global? Serão a nossa história, a nossa cultura e a nossa tolerância, os condimentos territoriais de um mundo que caminha para a rede?

Saturday, December 11, 2010

"Geração sem Rede" por @czorrinho

Pode parecer paradoxal mas não é! A geração que está agora a nascer, descendente directa da nova geração e maioritariamente descendente indirecta da minha geração, nasce num mundo conectado pelas redes mais potentes de transmissão de dados e de transporte de pessoas e mercadorias e no entanto nasce como uma geração sem rede!

Os nossos filhos que procuram comprar uma casa ou um bem patrimonial para o qual se exigem garantias, ainda podem em muitos casos beneficiar do papel de fiadores dos seus ascendentes, mas tal como a sociedade parece querer evoluir já dificilmente eles próprios poderão ser fiadores ou garantes dos investimentos dos seus filhos, ou seja da geração sem rede.

Já existiram ao longo da história muitas sociedades sem rede e sociedades com redes de betão para alguns (os titulares) e sem rede para a maioria. A verdade é que o mundo não acabou, mas os picos de iniquidade e de sofrimento foram muitos ao longo da história e está nas nossas mãos evitar que mais um desses picos surja em função da nossa inércia ou acomodação.

A nova geração vai ter que inventar uma nova sociedade em que os seus filhos se possam realizar e ser felizes. Eis um desafio forte que pode ser visto como uma ameaça, mas também como uma enorme oportunidade.

Aproximamo-nos dum tempo de reflexão, interrogação, partilha e renascimento. É esse o significado simbólico do Natal e do Novo Ano. É um tempo também para perceber que o egoísmo, o fechamento ou o lamento simples não conduzirá a nossa sociedade a nenhuma solução estimulante de reinvenção criativa.

A nova geração sem rede precisa que sejamos capazes, não de construirmos redomas para os nossos mais próximos, que a turbulência dos tempos se encarregará de quebrar, mas de renovar as bases da sociedade, aplicando os valores da equidade, da liberdade, da justiça, da solidariedade e da fraternidade ao novo mundo globalizado e competitivo em que vivemos.

Por esta altura das festas muitas famílias vivem as angústias da dádiva. Não da dádiva do amor que é gratuito e faz milagres, mas da dádiva das prendas. Uns vivem a angústia de querer dar e lhe escassear os recursos financeiros e outros vivem a angústia de não saber o que dar, tal é a parafernália de coisas a que os jovens com meios hoje acedem.

Pois deixem-me dizer-vos nesta crónica pré-natalícia, que para além das prendas que cada um entender e puder partilhar, há uma prenda essencial que devemos à geração sem rede. Devemos-lhe um mundo renovado, sustentável, fundado na confiança, na paz e no bem-estar.

Os modelos que criámos de capitalismo selvagem estão a dar o seu último estertor. A geração sem rede merece herança melhor. Este é o tempo de a preparar. Um tempo luminoso de desafio para os que forem à luta. Um tempo de trevas e frustração para os que desistirem.

in Fazer Acontecer, Carlos Zorrinho

Monday, November 29, 2010

ASSIMETRIAS REGIONAIS

Como é que têm evoluído as assimetrias regionais no nosso país? Estarão as regiões mais pobres a convergir em relação às mais ricas? Estarão as mais ricas a crescer ou a estagnar, como a economia nacional? Estaremos a ficar mais ou menos um país dual? Para podermos responder a estas questões, temos de olhar para uma série de indicadores que nos podem ajudar a esclarecer a evolução das assimetrias regionais em Portugal. Para tal, nos próximos dias, irei debruçar-me sobre estes indicadores. Hoje começamos com o PIB regional por pessoa, que nos indica o rendimento médio de cada habitante de uma determinada região.
Neste sentido, se atentarmos para o gráfico 1 (que nos indica o rendimento médio das regiões portuguesas relativamente à média europeia), facilmente poderemos retirar as seguintes conclusões:
Em primeiro lugar, é visível que, desde 2003, todas as regiões portuguesas estagnaram ou divergiram em relação à media europeia. Ou seja, desde 2003, que todas as regiões portuguesas ficaram mais pobres relativamente ao rendimento médio europeu. Ainda assim, vale a pena sublinhar que antes de 2003, as regiões que mais se destacaram em relação à convergencia de rendimentos com a Europa foram as regiões autonómas, com especial incidência para a Madeira. Assim, entre 1999 e 2007, o rendimento médio por habitante madeirense aumentou de 63% para 79% do rendimento de um europeu médio. Por sua vez, o rendimento médio dos Açores cresceu de 46% da média europeia em 1997 para 55% em 2007. Actualmente, os Açores já são mais ricos do que a Região Centro e do que o Norte do país, e a Madeira aproxima-se a passos largos para se tornar na região mais rica de Portugal.
Em segundo lugar, é igualmente notório que o Norte permanece a região mais pobre do país. Em 2007, o rendimento da Região Norte já era somente 49% do rendimento médio europeu, o que tornava o Norte numa das regiões mais pobres da Europa Ocidental. Obviamente que esta definição do Norte deixa muito a desejar, pois engloba tanto cidades relativamente afluentes como o Porto e Braga, como Trás-os-Montes. Ainda assim, a tendência de empobrecimento do Norte nos últimos anos é simplesmente indesmentível, um fenómeno que urge combater antes que esta divergência se torne demasiado grande.
Em terceiro lugar, a impressionante convergência dos rendimentos médios da Madeira em relação à media europeia foi travada nos últimos anos. Aliás, é até provável que esta tendência se tenha acentuado desde 2008, por causa do agravamento da crise económica.
Em suma, infelizmente, desde 2003, que nenhuma região portuguesa regista uma convergência significativa em relação à média europeia. Uma tendência que é imperioso inverter o mais brevemente possível.

Gráfico 1 _ Rendimento médio das regiões portuguesas em relação à média europeia (PIB por habitante, UE27 = 100)


Fonte: Eurostat

Olhemos agora somente para o contexto português e comparemos os rendimentos médios das diversas regiões com o rendimento médio em Lisboa (a região mais abastada de Portugal). Como podemos ver no gráfico 2, embora a Madeira tenha parado de convergir com a Europa, a convergência da região madeirense com Lisboa continua, apesar de o ritmo de convergência ter abrandado. Por outro lado, é igualmente visível no gráfico 2 que, entre 2004 e 2008, quase todas as regiões convergiram (muito) ligeiramente em relação a Lisboa. A excepção é o Algarve, cujo processo de convergência com a Europa e com Lisboa parece ter perdido ímpeto nos últimos anos.
Finalmente, os números referentes à convergência regional do gráfico 2 sugerem que as assimetrias regionais em Portugal continental se têm alterado pouco nos últimos 15 anos. É, de facto, notório que a diferença entre o PIB por habitante em Lisboa e as restantes regiões se tem mantido quase inalterada. Ou seja, as assimetrias regionaos portuguesas têm persistido e até se têm perpetuado. Pelo menos no que diz respeito ao Continente. A grande excepção a esta tendência são as regiões autónomas, que têm vindo a registar uma convergência real notável em relação ao continente e, em particular, a Lisboa. Se não fossem as regiões autónomas, certamente que as nossas assimetrias regionais nos pareceriam ainda mais imutáveis, quase glaciares.

Amanhã falarei da produtividade média e de outros indicadores regionais. Veremos se as mesmas tendências do Mezzogiorno português se manterão.



Fonte: INE

in Desmitos, Álvaro Santos Pereira

Friday, November 26, 2010

A Cidade Inteligente

Para assinalar o seu 30º aniversário, a AESE – Escola de Direcção e Negócios – reuniu cerca de 450 pessoas no Centro de Congressos do Estoril, em torno da discussão de um tema que, para além de actual, se torna cada vez mais urgente: a sustentabilidade e competitividade das cidades. Uma conferência que obriga à reflexão de temas vários e que já não podem ser negligenciados sob pena de fazermos das cidades locais esquecidos, anónimos e desprovidos de qualquer tipo de afectividade
POR HELENA OLIVEIRA

A partir de três grandes painéis, e com oradores prestigiados, foram debatidos novos desafios, estratégias e conceitos em torno não só das questões da mobilidade – uma das áreas-chave desta temática -, mas também no que respeita às infra-estruturas e redes nas cidades do futuro, ao papel das tecnologias, de novas formas de negócio, sem esquecer as questões culturais e de inovação social que encontram terreno fértil neste novo conceito de urbanismo.

Com o director-geral da AESE, Professor José Ramalho Fontes, a fazer as honras de abertura, traçando o já longo percurso desta escola de excelência, o dia terminou, como também já é hábito na instituição, com uma brilhante prelecção do reconhecido Professor Raul Diniz sob o tema “o núcleo da cidade”(v.Caixa) e que identificou o principal desafio da vida quotidiana como axiológico, ou seja, ao nível dos valores.

Um dia repleto de ideias que, decerto, obrigou à reflexão de novos paradigmas que, obrigatoriamente, terão de ser incluídos na forma como pensamos e vivemos as cidades. O VER resume o essencial da conferência.


Ter um carro é comportamento do século passado
Como não poderia deixar de ser, a questão das energias alternativas, as oportunidades de negócios, especificamente nas smart grids e o papel das tecnologias de informação e comunicação como fontes de inovação nas cidades, foi o tema escolhido para dar início ao primeiro painel. Respectivamente, Miguel Matias, presidente da Self Energy, Filipe Santos, da EDP e GBS Bindra, da Logica, traçaram as principais tendências de um mundo urbano que precisa de se soltar das amarras do carbono, de optar por novos comportamentos e, fundamentalmente, de inovar em termos de modelos de negócios que permitam outro tipo de vivências.

A questão da mobilidade foi central no debate. Com uma apresentação a cargo de Hans Rat, secretário-geral da União Internacional de Transportes Públicos, com sede em Bruxelas, secundado pelo Professor do IST, Tiago Farias, um confesso céptico no que respeita à tão desejada mobilidade eléctrica, a questão dos hábitos pessoais e sociais adquiriu importância extrema nos temas abordados.

Com uma estimativa que aponta para que, em 2050, 84 por cento da população da União Europeia viva em centros urbanos, Hans Rat apelou à urgência de novos modelos de mobilidade e sustentabilidade. Para além dos benefícios óbvios inerentes à utilização de uma boa rede de transportes públicos, com ganhos visíveis em termos de eficiência energética e menor poluição, o responsável alertou igualmente para a necessidade de se usar, de forma mais eficaz, o espaço urbano e para os ganhos económicos de uma Europa que tem que optar entre a dependência do automóvel e a mobilidade sustentável. A título de exemplo e na Europa a 27, os operadores das redes de transportes públicos empregam 1 milhão e 200 mil pessoas e, face à conjuntura de crise actual, o reavivar de investimentos nesta área crucial tornou-se urgente depois de décadas de manifesta negligência destes desafios e oportunidades.

Frisando o enorme potencial de crescimento inerente ao sector dos transportes públicos, Hans Rat afirmou ainda que estão já em curso várias estratégias para duplicar a utilização destes meios de transporte até 2025. Para tal, a Europa terá de integrar serviços de life style como uma sedutora opção para os cidadãos. Rat escolheu Hong Kong e o Dubai como exemplos de uma nova cultura urbana, ilustrando o seu conceito a partir do que é feito por grandes marcas, como a Yves Saint Laurent ou a Gucci, que têm lojas nas estações de metro. O Japão foi também escolhido como exemplo desta nova cultura na medida em que, desde 1990, a venda de carros decresceu 45 por cento, em simultâneo com um aumento de população de 20 por cento, citando, por entre risos, uma frase de um japonês que, em tom irónico, afirma que “ter um carro é ‘tããããoooo’ século XX’”. Ou seja, modelos de carsharing, que existem já em várias cidades da Europa, ou até de bikesharing, poderão estar a definir uma mudança de comportamentos já em curso, com os jovens a sentirem-se “embaraçados” por terem um automóvel.


Da sociedade individual para a sociedade da partilha
Em Portugal, como sabemos, esta mudança de comportamentos parece ser como a procissão que ainda vai no adro. E uma ideia similar foi defendida por Tiago Farias, professor no IST, cuja apresentação se centrou, exactamente, na questão da mobilidade eléctrica.

Para o professor, o problema principal reside, precisamente, no automóvel. Não só porque gasta muito, polui muito, custa muito – em termos de tempo e dinheiro – mas porque continua a ser suficientemente barato para ser utilizado em massa. Apesar de ter referido que a situação começa a apresentar algumas mudanças, Tiago Farias assegura que “as pessoas continuam a querer carros” e que, apesar de menos poluente, o veículo eléctrico é “só” mais um veículo.

Discursando sobre a necessidade de uma melhor gestão da mobilidade – que inclui não só a temática dos transportes públicos, o planeamento urbanístico, a questão dos estacionamentos e, por inerência, também a gestão dos espaços públicos, Tiago Farias afirma que está na altura de se mudar de uma sociedade individualista para uma de partilha, sublinhando também a necessidade de uma nova “inteligência sustentável”. Ou seja, inteligente e sustentável será o cidadão que, ao procurar uma residência, tenha em atenção a escolha do sítio, não só porque é agradável, mas levando também em linha de conta se esta se situa, por exemplo, perto de uma estação de metro ou comboio.

O professor do IST chamou igualmente a atenção para um conjunto de questões que nem sempre são bem abordadas no que respeita ao tema da mobilidade eléctrica. Em primeiro lugar, foi você que pediu um carro eléctrico? Não. Pois não. Faz sentido? A infra-estrutura de suporte está disponível? Existe legislação adequada? Há clientes interessados? Quem ganha? Quem paga?

As perguntas não são de resposta fácil, o que leva Tiago Farias a afirmar que o carro eléctrico é interessante, mas não é um milagre. É sustentável, mas não chega e não é a solução tão almejada. E, mais uma vez, a alteração comportamental tornar-se-á crucial nesta necessária mudança de paradigma. Por que nos deslocamos, como nos deslocamos e que regras aceitamos poderá ser um bom ponto de partida para reflexão, especialmente numa cidade como Lisboa que perdeu cerca de 30 por cento da sua população em 30 anos e na qual entram 400 mil carros por dia.

Enquanto conhecedor do programa português de mobilidade eléctrica, denominado MOBI.E, o qual promete tornar-se num novo cluster ambicioso, com base numa rede integrada entre vários pontos existentes em território nacional e que junta, no alcançar do mesmo objectivo, empresas, universidades e institutos científicos, Tiago Farias volta a expressar as suas dúvidas. Previstos estão 687 postos de abastecimento para o veículo eléctrico em 2011, mesmo que os seus promotores estejam conscientes que não têm ainda clientes para tal. O modelo de negócio também ainda não foi especificamente explicitado, nem os early-adopters. Ou seja e em síntese, é necessário definir uma estratégia de mobilidade eléctrica urbana em que o veículo eléctrico pode constituir um complemento, mas não a solução e que coloca em dúvida se, realmente, possa vir a resolver um dos problemas mais gritantes das cidades.

O professor do IST defende assim que este é um desafio significativo não só para o sector dos transportes públicos, mas também para os decisores e cidadãos.

Já em tempo de debate, Hans Rat voltou a insistir na existência de um novo modelo de independência face ao significado do carro, mas admitiu também que, ao nível dos diferentes países da UE, correspondem níveis emocionais igualmente distintos. Se existem já muitos jovens em algumas cidades europeias que optam por diferentes formas de vida que não passam pela noção de propriedade de um carro, basta estar-se atento aos parques de estacionamento existentes em algumas universidades portugueses para afirmar que, por terras lusas, o carro é, e muito provavelmente continuará a ser, o meio de transporte por excelência dos portugueses.


Cidades criativas e inteligentes
A dimensão cultural na competitividade das cidades foi o tema da apresentação de Cristina Azevedo, uma das responsáveis da “Fundação Guimarães Capital Europeia da Cultura”. Começando por um caracterização das diversas realidades, negativas, que coabitam num mesmo espaço – desde a desigualdade, a exclusão social, a pobreza, o crime, o desemprego ou a degradação ambiental – Cristina Azevedo elege a inovação e criatividade como essencial a uma cidade do futuro. Focando as cidades “encolhidas”, esquecidas, com uma diversidade cultural sem uma matriz estabelecida e onde a disrupção na noção de identidade é cada vez mais clara, a responsável defende a noção de “cidade criativa” como uma forma de atrair e reter talentos, para além da necessidade de esta vir a ser encarada como um ecossistema. Para tal, contudo, é urgente que se estabeleça um novo contrato social, um método inovador de planificação estratégica, que se debruce sobre a forma como as pessoas podem pensar e agir criativamente nesses territórios. Crucial será também um novo enfoque no que respeita ao papel das infra-estruturas, no qual se favoreçam a experimentação e o risco e onde a estreita ligação entre ciência, arte e tecnologia possa inventar novas soluções para velhos problemas. E tudo isto dará origem a uma economia criativa, com benefícios óbvios.

Já António Pires Santos, da IBM, fez uma apresentação mais técnica ou, melhor dizendo, mais tecnológica, sobre a integração dos sistemas urbanos ou a importância dos sistemas informáticos para melhorar a qualidade de vida e a sustentabilidade das cidades. O conceito de cidade inteligente foi aprofundado pelo responsável para a Europa da área de Energy & Utilities Business Solutions da IBM, tendo sido definido como uma interligação entre as infra-estruturas físicas, de TI e sociais, a par da própria infra-estrutura de negócio, para aumentar a inteligência colectiva da cidade. Sistemas inteligentes de gestão de água, energia, ambiente, em conjunto com uma gestão igualmente inteligente dos sistemas de transporte e da segurança pública permitem uma visão sobre a cidade muito mais integrada e eficiente.

Promover a afectividade
Visões díspares sobre a cidade enquanto espaço de inovação social foi o tema da apresentação de Diogo Vasconcelos, Distinguished Fellow da Cisco, que ofereceu à plateia uma volta ao mundo guiada pelas novas necessidades, ideias e mercados que estão já a ser implementados nestas “novas” cidades. Sublinhando que todas as soluções que normalmente se apresentam estão baseadas em modelos antigos, aquele que já foi apelidado como “o homem do Presidente” para o mundo digital, afirmou que todas as crises geram disrupções e podem abrir a chave para uma “nova era dourada”. Para o homem que afirma que “somos aquilo que partilhamos”, antes de mais nada, é necessário fazermos um ctrl+alt-delete , ou seja, um espécie de restart a tudo aquilo que nos habituámos a ter como certo e abordar a inovação de uma forma completamente inovadora, passe o pleonasmo, em que no centro desta não se encontram apenas os produtos, mas sim novas formas de gerar capital social e saber lidar com áreas como a saúde, especialmente no que respeita às doenças crónicas ou com o envelhecimento da população. Para Diogo Vasconcelos, a crise é igualmente uma oportunidade para se criar uma nova vaga de empreendedorismo na Europa. A ideia das cidades como desertos de afectividade, em que o multiculturalismo é a norma, tem de ser transformada para poder gerar mais capital social. Uma das formas é inverter o declínio da “rua” como um espaço público, restaurando-se relações de amizade e de vizinhança, tal como foi feito numa iniciativa que teve lugar em Londres, denominada “The Big Lunch” em que as pessoas convidaram os amigos e os amigos dos amigos para almoçarem na rua.

A questão das emoções serem contagiosas e da influência, muito por causa das redes sociais, que os tais amigos e amigos dos amigos têm nas ideias, nas emoções, na saúde ou na política, ou seja, no comportamento geral, é algo a que se tem que dar uma obrigatória atenção.


Uma outra ideia defendida por Diogo Vasconcelos prende-se com o aumento das plataformas de ajuda mútua – ou seja, a criação de redes sociais “privadas” com quem nos está mais próximo. Este conceito está ligado igualmente às comunidades futuras, ou seja, existem já inúmeras iniciativas em que, através da Internet, se criam, por exemplo, redes de ajuda local aos idosos. Ou se criam plataformas para ajudar os doentes de cancro. Ou se ajuda os seniores a resolverem problemas tão aparentemente simples como instalar uma câmara Web no computador “para conseguir falar com o meu neto”. Todas estas plataformas online de apoio social terão que ser uma realidade cada vez abrangente nas cidades que albergam tantos “anónimos” que, muitas vezes, vivem sozinhos e sem qualquer tipo de ajuda. Como afirmou, “o que leva à morte é a sensação de fardo e de inutilidade”, a integração de idosos em serviços à comunidade é, igualmente, uma tendência crescente em vários agregados urbanos.

O director da Cisco introduziu igualmente a urgência de se criar e experimentar novas formas de financiamento, as quais denominou como “títulos de impacto social”. Com base na premissa de que estamos a mudar de um Estado do bem-estar para uma sociedade do bem-estar, Diogo Vasconcelos deu um exemplo em que é o dinheiro do mercado e não o do Estado que pode resolver problemas sociais. Ou seja, se o problema X for minorado, o Estado paga, a estes investidores sociais, uma compensação em obrigações. Caso não o seja, não terá de pagar nada.

O responsável da Cisco alertou também para a necessidade de se “conhecer o outro”, para o denominado Diálogo das Civilizações. Defendendo que faltam canais para promover o entendimento com o outro, algo que não é um luxo, mas uma pré-condição para o diálogo, Diogo Vasconcelos falou do “Dialogue Café”, um projecto que lidera na Cisco e que já teve uma sessão em Portugal. A ideia é simples mas poderosa: com base na premissa que as pessoas têm mais em comum do que aquilo que as divide, dar-lhes a possibilidade de se “encontrarem” traduz-se na exploração de interesses comuns, no desencadear de colaborações e no estímulo de ideias sobre como enfrentar a(s) crise(s). Assim, o Dialogue Café é isso mesmo: uma mesa de café, um computador e ter-se o “outro” à nossa frente, criando-se janelas sobre mundos diferentes, a partir de espaços públicos do tipo “café”. Com o apoio das Nações Unidas para Aliança das Civilizações, os dois primeiros Dialogue Cafés abriram em finais de Maio último e em simultâneo, no Rio de Janeiro, na Universidade Cândido Mendes e em Lisboa, no Museu da Moda e do Design. Mas são várias as cidades que têm já “encomendado” este modelo e tão díspares como Amesterdão ou Telavive, ou Cairo e São Francisco. Para um diálogo e para cidades sem fronteiras.

in Portal VER

Monday, November 15, 2010

Energy for Smart Cities, 16 Novembro no Estoril

Mais de 50% da população mundial e 70% da população da UE vive em cidades. Nas cidades convergem todos os recursos naturais: materiais, água, alimentos e energia. o acesso dos cidadãos ao bem-estar e as condições de criação de riqueza são confrontados hoje com a responsabilidade ambiental na utilização da energia, tendo em conta o aquecimento do planeta e as alterações climáticas. as exigências da sustentabilidade ambiental, social e económica interpelam o protagonismo das cidades na sua contribuição privilegiada para a consecução de um novo paradigma energético marcado pela eficiência energética e pelo uso das energias renováveis, limpas, dispersas e de proximidade.

Thursday, November 11, 2010

Monday, November 01, 2010

Regresso ao Campo







Como é a vida dos neo-rurais portugueses? Porque se decide ir viver para o campo?... Um documentário de Paulo Silva Costa, na RTP1

João Carvalho viveu onze anos em Londres. Teve êxito, mas fartou-se do frenesim citadino e dos horários das 9 às 5.

Optou por uma existência mais simples. Veio viver com a mulher e o filho recém-nascido para uma casa abandonada que descobriu através da internet e que comprou na Benfeita, em Arganil

Está a reconstruir a casa pelas suas próprias mãos. Só usa ferramentas manuais, e o mínimo de cimento ou de combustíveis fósseis.

O casal é vegetariano. Por isso, quando chega a hora de almoço, a mulher, Claire, tem apenas de descer às hortas abandonadas mais próximas para colher a próxima refeição. Também já fizeram vinho e cinquenta litros de azeite.

João desistiu propositadamente de uma vida com torradeiras e aquecimento eléctrico. Podia tê-la sem dificuldade, mas quer "viver com menos", como diz.



Claire e João são um exemplo de um grupo de novos rurais com crescente implantação nalguns partes esquecidas de Portugal, como é o caso da serra da Lousã ou do barrocal algarvio.

Os primeiros destes neo-rurais eram estrangeiros. Vinham de uma Europa Central então ameaçada por Chernobyl, à procura do últimos redutos naturais do Continente. Este movimento da populacão iniciou-se de resto já há décadas na Europa, mas só há pouco tempo ganhou alguma relevância social em Portugal.

Por cá, desde os anos quarenta do século passado que as migrações eram em direcção às cidades. Foi este êxodo rural que transformou Portugal num pais macrocéfalo, com um interior cada vez mais desertificado e a população concentrada no Litoral e sobretudo na área da Grande Lisboa.

"As pessoas abandonaram as áreas rurais e foram para as cidades à procura de trabalhos menos duros fisicamente, com remunerações mais elevadas ou pelo menos mais regulares, e à procura de melhores oportunidades para os filhos" - explica a geógrafa Teresa Alves, professora do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa.

Ir para a cidade era então visto como uma ascensão social, qualquer que fôsse a vida das pessoas lá.

Mas o mundo rural mudou muito nos últimos trinta anos. Os tractores substituiram o trabalho braçal, e os subsídios comunitários tornaram mais fácil viver no campo. Hoje em todo o lado há supermercados, a toda a parte se chega num instante graças às auto-estradas, e a internet tornou possível viver no campo mas trabalhar em funções que outrora só na cidade se podiam exercer.

Valorizaram-se também socialmente modos de vida desprezados num passado recente. E iniciou-se outra migração interna, a mudança para o campo dos ex-citadinos...





Agora, os geógrafos até já distinguem diferentes grupos destes "neo- rurais": há os que partem por motivação ecológica, os que na reforma regressam à terra natal, aqueles que se dedicam ao teletrabalho, e até os desempregados por causa da crise...

São algumas dessas pessoas que fizeram a opção de ir viver para o campo que o documentário vai encontrar.

Contata-se que os novos rurais portugueses são muitas vezes os netos ou os filhos dos que partiram para as cidades no século passado. Querem mudar de vida, tal como os seus pais e avós, mas têm outros valores.

"Valorizam o seu próprio tempo e modos de vida mais solidários" - conclui Teresa Alves - "e vão á procura de actividades em equilíbrio com a natureza. Também são pessoas que têm uma cultura de território, e que buscam um lugar específico onde possam ser felizes".

Um documentário de Paulo Silva Costa, com imagem de Rui Lima Matos, genérico de Pedro Cerqueira, edição de João Gama, sonorização de Luís Mateus e produção de João Barrigana.

52 min, © RTP 2010

Friday, October 29, 2010

Quanto vale a Internet na economia portuguesa?

Um estudo realizado para aferir o peso da Internet na economia britânica, divulgado ontem, integra alguns dados também em relação a Portugal, que permitem perceber o posicionamento do país num ranking de 28 Estados, membros da OCDE.

Numa tabela global que resume o nível de impacto da Internet na economia dos países (e-Intensity Índex) Portugal surge na 23ª posição. Neste ranking, onde entram em linha de conta o peso do comércio electrónico e dos diversos serviços online geradores de valor, foram avaliados três indicadores principais: Capacidade; despesa e compromisso, associado à Internet.

Portugal surge nos três indicadores na segunda metade da tabela, sendo 20º na tabela que mede a capacidade (Enablement), onde se procura dar resposta à questão: Quão bem construída está a infra-estrutura de Internet e quão disponível é o seu acesso?

No que se refere à despesa - onde se responde à pergunta: quanto gastam os consumidores e empresas no e-commerce e publicidade online? - Portugal é o 24º da tabela e no Compromisso (Engagement) apresenta-se na 22ª posição. Para apurar este indicador os autores do estudo procuraram responder à questão: com que empenho está o governo, cidadãos e empresas a abraçar a Internet?

O objectivo central do estudo era medir o impacto da Internet na economia do Reino Unido. As conclusões da pesquisa, conduzida pelo Boston Consulting Group a pedido da Google UK, revelam que a Internet deu em 2009 um contributo de 100 mil milhões de libras para economia britânica o que representa 7,2 por cento do PIB. O impacto atribuído à Internet para a economia do país fica assim acima do assegurado por sectores tradicionais como a construção, os transportes ou as utilities.

in Tek.Sapo.pt

TED Kiran Bir Sethi: Como ensinar às crianças o poder de cada uma delas

Mais do que ensinar conhecimentos teóricos de matemática, inglês e ciências, a verdadeira educação deve ser capaz de transformar alunos, professores, escolas, cidades e até países inteiros. Esse é o objetivo da fundadora e diretora da Riverside School, Kiran Bir Sethi: “infectar” a todos com o vírus do “eu posso”.
Em sua palestra no TED ela conta que foi infectada quando tinha 17 anos e sentiu a confiança depositada nela por seus professores de faculdade. “E eu fiquei impressionada com aquela sensação tão maravilhosa, e quão contagioso esse sentimento era. Eu também percebi que eu deveria ter sido infectada quando tinha sete anos.”
Quando começou com a escola Riverside, há 10 anos, Kiran descobriu que se o aprendizado estiver incorporado no contexto do mundo real, as crianças passarão por uma jornada de conscientização capaz de fazer com que elas vejam as mudanças e sejam mudadas por elas. Com isso, elas estarão capacitadas para conduzirem as próximas transformações.
Com isso em mente, ela começou uma série de trabalhos com as crianças, primeiro da escola, depois da cidade, depois de toda a nação, para reduzir as distâncias entre a teoria e o mundo real e espalhar o vírus do “eu posso”. O resultado pode ser visto não apenas no comportamento das crianças, como também nas notas – que estavam acima das melhores escolas da Índia.
Após citar os exemplos de ações que comprovaram sua teoria, Kiran lembra aos ouvintes do poder inspirador das mudanças e cita o exemplo de Gandhi, que mesmo sozinho conseguiu infectar uma nação inteira com o vírus do “nós podemos”.
Confira a palestra na íntegra (para ver com legenda em português, selecione a opção ao lado do play):


in EcoDesenvolvimento

Thursday, October 28, 2010

Mudar de vida. Trocar o trabalho na cidade pela vida rural

"Começamos a fazer um furo para procurar petróleo, chegamos a dois quilómetros de profundidade e nada, escavamos mais, passamos os quatro, cinco quilómetros e nada. Outra pessoa chega, abre um furo uns metros ao lado e encontra-o quase à superfície." A imagem ilustra a reposta de Nuno Ribeiro, 44 anos, quando lhe perguntam "Como é que ninguém pensou isso antes?"

Designer de comunicação, depois de 17 anos ligado a um projecto que ajudou a fundar - a ETIC (Escola Técnica de Imagem e Comunicação), em Lisboa - decidiu arriscar e fundou o GIZ, um centro de formação com sede na aldeia de Pedralva, concelho de Vila do Bispo. Cortou com a vida na cidade, onde sempre tinha vivido, e trocou-a por outra bastante mais tranquila, com a mulher e o filho de dez anos. "Foi consensual, estávamos fartos da selva urbana." Já lá vão quatro anos.

O seu projecto oferece uma série de cursos que podem ir da fotografia à escrita criativa. Demasiado à frente para uma área mais ou menos recôndita no sudoeste do país? Talvez não.

Os interessados dividem-se entre os hóspedes da aldeia turística de Pedralva e a população circundante, que não tinha acesso a este tipo de serviços. "Lembro- -me da reacção de miúdos que pegaram pela primeira vez em câmaras", conta, "é reconfortante". Após este primeiro passo na região algarvia, Nuno está também à frente do novo pólo da ETIC, em Portimão. A quem tenha um projecto inovador, aconselha: "Não há que ter medo. A maioria dos obstáculos que as pessoas põem ao viver fora da cidade são fantasmas para se desculpabilizar a si próprias."

apontar Se pensa em investir numa carreira em áreas rurais, há sectores em que a aposta é quase certamente ganha. O turismo rural é uma delas e, a avaliar pelo crescimento, tem sido motivo de migração de muitos portugueses. Palmira Amorim de Sousa e Manuel da Nave Soares são disso exemplo. "Levanto-me e ajudo no pequeno-almoço: preparo doces caseiros, compro o pão, etc. Depois começo a gestão dos quartos, lavandaria, manutenção da piscina, do jardim... Nada é monótono, há sempre imensa coisa para fazer." O dia-a-dia de Palmira ainda se divide entre estas tarefas e o cargo de professora de Educação Visual numa escola em Lisboa. Mas isso acabará quando conseguir a reforma.

Palmira e Manuel conheceram a Quinta dos 4 Lagares por um anúncio no jornal. O sonho de abrir e gerir pessoalmente uma unidade de turismo rural realizou-se dez anos depois. O tempo de espera foi preenchido com projectos arquitectónicos e obras de recuperação. "É um processo demorado - pelos casos que conhecemos, oito ou nove anos - e que implica um grande investimento", explica Palmira. Se valeu a pena? "Sim, sobretudo pela qualidade de vida." Quando chegaram não conheciam ninguém. "Hoje, os vizinhos dão-me feijão, tomate, batatas", conta. "Poder chegar à janela e ver ovelhas a pastar é uma vida completamente diferente."

Já há 25 anos, António e Ana Maria Pinto Ribeiro embarcaram no mesmo sentido. Uma hospedeira da TAP e um engenheiro mecânico deixaram a cidade do Porto, instalando-se definitivamente numa antiga propriedade da família, a Casa de Santo António de Britiande, no concelho de Lamego. O objectivo era dar os primeiros passos no sector do turismo. Hoje, para além do turismo de habitação, têm propriedades agrícolas e produzem vinho e azeite.

Desde 1985, muita coisa mudou. "No início estávamos muito limitados a nível de vias de comunicação. Ir até Vila Real, Viseu ou Porto [as cidades mais próximas] era difícil. Não havia cinema. O teatro era pouco. A assistência médica nunca foi problema, mas também não era a melhor." Para quem estava habituado à vida na cidade, faltava, por exemplo, oferta de bons restaurantes. "Hoje já há um pouco de tudo, com grande qualidade", e os acessos a cidades maiores estão facilitados.

"Há uma geração mais nova, entre os 30 e os 40 anos, que se está a instalar na região. A maior parte na área da agricultura", garante António, justificando o movimento com a UTAD [Universidade de Trás--os-Montes e Alto Douro] mas também com as empresas que vão surgindo e que têm necessidade de técnicos qualificados.

extremo Tomás Pracana tem 25 anos e vive desde Abril em Vila de Rei. "Vim com uns amigos que têm aqui família, encontrei uma casa com renda barata e fiquei." Neste momento, está a construir a sua própria casa num terreno e prepara-se para viver numa caravana enquanto não a termina. Viver numa pequena vila no centro interior de Portugal é o culminar de um percurso que passou por cenários tão distintos como Dinamarca, Luxemburgo, França e Alemanha. "O ideal seria viver puramente da agricultura", conta, para explicar o propósito da sua mudança. "Mas quem não ganha dinheiro não é bem visto, nem mesmo aqui", e por isso continua a trabalhar na área da animação com a ajuda da ligação à internet.

Tirou o curso de Multimédia em Lisboa e portanto sabe como funciona a vida na cidade. "É um ciclo. A própria maneira como a cidade está construída gera problemas", o que o leva a nem pensar em voltar. A auto-sustentabilidade acaba por ser mais fácil assim, defende: há uma série de gastos que se eliminam automaticamente. "Se planto para consumo próprio, a qualidade do que como é maior, e estou menos vezes doente, logo não vou tanto ao médico." O seu caso é o exemplo mais radical de que independentemente da razão - ecológica ou económica, criativa ou vulgar -, a fuga da cidade é, acima de tudo, uma mudança de atitude. "O melhor de tudo é ligar o rádio de manhã, ouvir os problemas no trânsito e respirar fundo", brinca Nuno Ribeiro.


in ionline

Tuesday, October 26, 2010

The shrinking city: Detroit considers concentrating growth, letting vacant areas go rural

Resources may be focused along a light-rail line and on downtown, Midtown, and the better-positioned neighborhoods.

Mayor Dave Bing launched a community outreach process in September that will probably result in a plan for returning parts of Detroit to almost rural conditions.
By some estimates, 40 square miles of the 139-square-mile Motor City currently lie vacant. Roughly 33,000 houses reportedly stand empty, and 91,000 residential lots are unoccupied. Once the nation’s fifth-largest city, home to 1,849,568 people at its peak in 1950, Detroit is now down, by one count, to fewer than 800,000 inhabitants.
With Michigan’s auto industry stripped of its former muscle, many believe Detroit must concentrate its resources and population in fewer, well-chosen places — and encourage some of the semi-abandoned areas to revert to farm fields or nature. The test of how far Detroit goes in that direction will be a new city vision — a strategy for “right-sizing” Detroit — scheduled to be released in December 2011.
In recent months, debate among those with extensive knowledge of Detroit’s situation has favored strengthening the urban qualities of downtown, Midtown — where institutions like the Detroit Institute of Art and Wayne State University are clustered — and other districts that have mostly remained stable.
Midtown, north of downtown, has experienced an influx of young people, artists, and others in recent years as old buildings have been converted to lofts, and other housing has been built from scratch. In all, 3,500 dwellings have been created in Midtown in the past decade, says Mark Nickita, principal of Archive Design Studio, a Detroit architecture and urban design firm. Restaurants, cafes, and music venues have flourished in part because Wayne State, with more than 30,000 students, functions as a permanent anchor, making Midtown one of the most stimulating sections of the city.
“Midtown is going to be a dense area, especially once we get light rail down Woodward Avenue,” says Samuel Butler, who co-chaired the Futures Task Force of Community Development Advocates of Detroit — a group that in late 2008 began devising ideas to “reinvent” the city.
Leaders in government and the private sector succeeded this year in winning a $25 million federal TIGER grant to build an initial 3.4-mile segment of the Woodward Light Rail Line. That sum, when combined with approximately $125 million already raised from philanthropic sources, should make it possible to begin construction within the next two to three years on the segment from the Detroit River through downtown and Midtown to West Grand Boulevard.
If additional funds are secured, a second phase, extending the line to Eight Mile Road (for a total length of 9.3 miles) could be operating by 2016. The full line is estimated to cost $450 to $500 million, much of which would have to come from the Federal Transit Administration.
Andre Brumfield, director of urban design and planning at the Chicago office of the design firm AECOM, led a team looking at how to transform the Northend neighborhood, a distressed area that would be served by the light-rail line. “The new neighborhood plan calls for high-density, mixed-use development oriented around [Northend’s] three transit stations,” Brumfield explained in Model D, a Detroit online periodical.
Northend’s housing would include townhouses and three-story walk-ups, which could have retail on the ground floor. “The area will also include new community parks, space for high-tech or light industrial businesses, and some land for urban agriculture,” said Brumfield. “It’s a big transformation for an area that was historically dominated by the single-family home.”
Nickita sees Eastern Market, a produce market whose historic sheds have been restored, as another focal point of Detroit’s future urban life, benefiting from the surge of interest in “Detroit-grown” agricultural products. Hundreds of community gardens have been established in the city in the past few years.
Dying neighborhoods, tomorrow’s farms?
There has been talk about offering incentives to entice the remaining residents of largely abandoned areas to move into denser neighborhoods, where they would enjoy access to a greater range of nearby services and might feel safer because of more neighbors and more eyes on the street.
It has been suggested that hold-outs might be forcibly relocated — an idea repeated many times by the news media. However, forcing people to leave their homes — except in the case of dangerous code violations — seems unlikely. Memories of the urban renewal’s dislocations remain too painful, especially in a city where at least 76 percent of the population is African-American.
Certainly some deteriorated neighborhoods will lose their last vestiges of urbanism. Mayor Bing has pledged to demolish 3,000 empty residential buildings by the end of this year and to raze a total of 10,000 over four years — a big jump from recent years.
Some of the cleared land could be turned into individual or community gardens, parks, recreation areas, or, in more extreme cases, assembled into tracts large enough for commercial farming.
Businessman John Hantz, who built up a financial holding company called Hantz Group, in nearby Southfield, has in the past two years established a company called Hantz Farms LLC with the intention of creating in Detroit “the largest urban farm in the world.”
Hantz says he will spend up to $30 million on his farming venture. He dismissed some competing ideas for the use of empty land, telling an interviewer, “If you turn it over to parks and recreation, you add costs to an overburdened city government that can’t afford to teach its children, police its streets, or maintain the infrastructure it already has.”
In late September, Michael Score, president of Hantz Farms, told an architects’ gathering that the company is working at assembling 120 acres — the size of tract the company believes is needed to make a farm profitable. Acquiring clear title to such a large contiguous expanse of urban land has proven to be a challenge, but Score said the farm can work around hold-out properties, just as farms in rural areas work around scattered buildings in the landscape.
The company is considering a variety of things to plant, including Christmas trees and an apple orchard. Score has said the company would deploy the latest in farm technology, such as compost-heated greenhouses and hydroponic and aeroponic growing systems.
It’s possible that farms and gardens will be merely a holding stage, until more lucrative or job-generating use of vacant land turns up — factories, for example.
“I don’t think urban agriculture is the silver bullet,” says Butler, who is now working with a committee that’s fleshing out Community Development Advocates’ vision of the future. Even if the persistent problem of pollution of the land is overcome — many urban gardens have to use raised beds filled with new soil — “urban agriculture isn’t going to produce the jobs,” Butler says. “I’m not convinced it’s going to give Detroit an economic advantage. We need to compete with other post-industrial cities around the nation, like Cleveland.”
Urban and community gardening seems mostly to excite educated white people, Butler observes, while African-Americans, many of whose grandparents were sharecroppers, are often not eager to get into farming.
Shrinking a city’s costs
A leading reason why cities talk about “shrinking” is that they can no longer afford all the things they’ve customarily paid for. If large areas become uninhabited or very lightly populated, a number of expenses can be reduced.
“A road that gets very little traffic doesn’t need the same kind of paving,” says Margaret Dewar, a University of Michigan planning professor. “It may not need curbs.”
Where residents are sparse, garbage collection could be done in one run — down just one side of the street, saving a trip, Dewar says. “Maybe you have to wheel your garbage to the end of your street,” where, she hypothesizes, the block’s garbage could be collected from a single location. If an area were largely emptied of residents, it might be possible to cut off water and sewer service — and have any stragglers convert to wells and septic tanks.
“It’s possible to scale down police, fire, garbage hauls,” says Hunter Morrison, longtime planning director for Cleveland before he accepted a position as Youngstown State University’s liaison to the City of Youngstown on development issues. Other operations are more difficult to reduce effectively. Open land requires basic maintenance “unless you plant wildflowers,” Morrison says.
“Some systems are not paid for by the city at all,” he points out. “The gas lines are operated by the gas company, so you’re not saving the city money” by having them removed.
With one-third of Detroit’s population living in poverty, quite a few residents don’t have cars. Partly because of that, Nickita’s firm produced a plan for a “nonmotorized transportation network” that bicyclists and others can use to get from place to place, separate from the streets.
A 1.35-mile segment of that network, the Dequindre Cut Greenway, opened in May 2009, featuring a 20-foot-wide paved pathway with separate lanes for cyclists and pedestrians. It runs below grade on the former right-of-way of the Grand Trunk Railroad. Splashed on some of the remaining structures along its route is graffiti, regarded by some as urban art. “All the overpasses are sort of ruined,” Nickita acknowledges. A shrinking city has its own aesthetic.

in New Urban Network

Monday, October 11, 2010

Mark Zuckerberg. O senhor Facebook nasceu para ser líder


O criador do site mais visitado nos Estados Unidos assumiu desde o início o controlo da empresa. O segredo do seu sucesso resume-se a uma palavra: liderança

Em Julho de 2006, um miúdo de 22 anos encontrou-se com o veterano Terry Semel, CEO da mítica Yahoo!, para discutir a venda da sua pequena start-up. Semel ofereceu-lhe mil milhões de dólares (750 milhões de euros) pela rede social só para estudantes que tinha criado dois anos antes. Primeiro o miúdo de 22 anos disse que sim, mas o acordo era apenas verbal. Quando Semel baixou a oferta para 600 milhões e depois voltou a subi-la, o miúdo pensou duas vezes e voltou atrás. Afinal não. Não queria vender a sua pequena start-up por uns impressionantes mil milhões de dólares. Esse miúdo era Mark Zuckerberg e essa rede era o Facebook.

Ninguém queria acreditar no que ele tinha feito; as críticas choveram de todos os lados. Chamaram-lhe de tudo - de presunçoso para baixo. Era de loucos que alguém com 22 anos batesse a porta na cara a um magnata que lhe oferecia mil milhões de dólares. Mas Zuckerberg tinha uma visão muito concreta do que queria para o Facebook e nenhum outro saberia executá-la como ele.

Na altura, o Facebook estava limitado à comunidade estudantil e tinha apenas sete milhões de utilizadores. Hoje, quatro anos depois, ultrapassa os 500 milhões de utilizadores e já é o site mais visitado nos EUA - passou o Google em Agosto. Neste momento, os investidores avaliam o Facebook em nada menos do que 33,7 mil milhões de dólares (25,2 mil milhões de euros). Quem é que é presunçoso agora?

Perceber como Zuckerberg fez isto é fascinante. É certo que a rede social foi recebendo generosas injecções de capital nos anos seguintes, incluindo a entrada de 240 milhões de dólares da Microsoft, que comprou 1% da empresa em 2007. Mas tudo se resume a uma palavra: liderança. Zuckerberg, que fundou o Facebook quando tinha 20 anos, é um líder nato.

Ao contrário do que fizeram os criadores da Google, que entregaram a direcção executiva da empresa a uma pessoa de fora, Zuckerberg assumiu desde o início o controlo da empresa, seguindo um modelo "à la" Bill Gates na Microsoft. Tudo o que acontece de novo no Facebook vem da sua cabeça ou passa pelo seu crivo. Ao longo dos últimos anos, tem cometido vários erros que lhe podiam ter custado caro - mas veio sempre assumir a responsabilidade e controlar os danos. Pessoalmente. Como qualquer líder faria.

A sua característica mais valiosa? Saber rodear-se dos melhores entre os melhores de Silicon Valley. É impossível contar pelos dedos das mãos a quantidade de executivos que foi buscar à Google, a rainha dos motores de busca, onde toda a gente quer trabalhar - ou queria. Para começar, conseguiu convencer Shely Sandberg a deixar a Google e a tornar-se número dois do Facebook - feito que realizou durante uma festa de Natal e, mais tarde, nas pausas para café no Fórum Económico Mundial em Davos. Um CEO de 23 anos a convencer uma veterana de 38 a colaborar com ele só pode ter sido delicioso.

De lá para cá, foi uma sangria total. As contratações cirúrgicas seleccionaram os melhores de empresas como a Yahoo!, Genentech, Mozilla, Bebo, Microsoft, além do regulador de telecomunicações FTC e de um antigo conselheiro da Casa Branca. Até o melhor cozinheiro da Google, Josef Desimone, Zuckerberg foi buscar.

in ionline

Thursday, October 07, 2010

Home Based Jobs



Till a little over five years ago, unemployment was a major problem, not only in India, but the world over. It became a global phenomenon; and what increased this problem was the number of companies' suddenly shutting shop, leaving even more people unemployed. For this reason, skilled labor was ready to take up unskilled, low-paying jobs just so that they could earn at least their daily bread and butter.

But then with time things began to change for the better. And, at this point it seems as if the unemployment rate is almost reversed, with an increasing number of opportunities. This is all the more the scenario in India, where almost every household has at least one member employed, if not all adult members of the family. And the best part is that employment does not imply going to an office, but being at home and earning very well.

Interestingly, the number of women being employed is increasing by the day. This is because of the number of home based jobs. There are a large number of companies that are employing people to work from home.

This is not only a trend with international companies that prefer Indian labor, because of the cost effectiveness; but even Indian companies ask their staff to come in two to three times a week and the rest of the days to complete their work from home. This way infrastructure costs decrease and they feel their staff will meet more targets.

The reason why home based jobs are on an increase is because of the connectivity. Now because internet and phone connectivity is so wide spread, whether working at home or in the office it hardly makes a difference. In fact, for women it is a blessing in disguise.

Apart from writers, journalists, editors there are myriads of others who can gain from such opportunities. There are profitable home based internet businesses of various kinds. These could include marketing and conducting research via the internet, designing sites and web pages, and the like. The opportunities are plenty. It just calls for some patience and perseverance to gain maximum opportunities.

Another advantage of taking up home based jobs, is that at one go one can take up multiple tasks. This would obviously increase the earning capacity of the individual. Some people have actually expanded to an extent where they have set up small time business infrastructure and outsource work to others, on a profit sharing basis or a contractual basis.

However, while taking up any assignments or setting up a business to provide home based work to others, it is essential to take into account all legalities. Especially now when the tax department has raised its antennas. Ideally, set up legitimate home based businesses and also take up assignments from companies that have some legal binding. Check the credentials of the hiring company to prevent any kind of possible problems.

For those who are ambitious to set up their own businesses at home, there is a huge treasure trove out there, as far as opportunities are concerned. Its all about going out there and making the most of the successful home based business ideas that are floating all over the place.

in http://www.homebasedjobs.in/

Wednesday, October 06, 2010

Adeus Conhecimento! Olá Criatividade! por @jabaldaia


A humanidade tem uma determinada quantidade de conhecimentos à sua disposição, mas nem toda a gente o possui. O conhecimento possui qualidades diferentes e conforme a dosagem, da sua aquisição ou internalização, é tomado em grandes quantidades ou pequenas quantidades.

Isto faz-me lembrar que uma das primeiras características da materialidade é que a matéria é sempre limitada, ou seja, a quantidade de matéria, num determinado local e em determinadas condições, é limitada.

Por isso há duas questões que coloco em termos de provocação de pensamento:

- O conhecimento não pode pertencer a todos?

- O conhecimento não pode, sequer, pertencer a muitos?

O conhecimento “complexo”, corrente e a adquirir, aumenta todos os dias e são exigidas novas competências a nível pessoal, aos grupos e às organizações. Estes níveis de competência são alterados à medida que a dificuldade e a complexidade aumentam e exigem capacidade de combinação.

Mas, segundo Gary Hamel, “num mundo do conhecimento como produto, o retorno vai para as empresas que podem produzir conhecimento não standard. O sucesso aqui é medido pelo lucro por empregado, ajustado pela intensidade de capital. O lucro da Apple, per capita, é significativamente maior do que seus principais concorrentes, assim como é o rácio de lucros da empresa para o imobilizado líquido.”

Na procura desse conhecimento que não é o padrão, emerge a criatividade como vantagem de diferenciação. O conhecimento produzido pelas empresas como foi o caso da Apple, facilmente é transferido com facilidade para a concorrência, provocando uma nova necessidade: Criar e voltar a criar.

Face à grande variedade de informação disponibilizada pelas redes exteriores às empresas, aumenta a dificuldade na tomada de decisão e a avaliação da qualidade e sustentabilidade da informação torna-se mais complexa.

As consequências são um alargamento de competências gerais e uma dependência de peritos ou especialistas.

Por essa razão e dada a natureza da impossibilidade de retenção exclusiva dessa informação as empresas têm de encontrar outros caminhos que, necessáriamente passam pela criatividade.

O reinado da gestão do conhecimento, tal como ele era até há pouco tempo está em extinção. O novo reinado será da combinação do conhecimento com a criatividade.

É preciso construir um clima de trabalho, que acolha atributos como a paixão e a criatividade, dentro das organizações. É preciso uma mudança fundamental nos modelos mentais dos responsáveis dentro das organizações.

Aumentar a complexidade num ambiente aberto e dinâmico, como temos hoje, exige um desenvolvimento excepcional de flexibilidade e adaptabilidade dos indivíduos e organizações. Estamos perante um cenário de desenvolvimento de competências e de crescimento de intensidade do conhecimento e que ao mesmo tempo exige um lugar de destaque para a criatividade e a inovação.

Num sistema complexo e envolvente de conhecimento intensivo, os agentes que nele participam têm não só de aprender, como também de aprender a aprender e sobretudo a adaptar-se e a criar algo de novo.

Isto significa que por vezes, estamos a superar a nossa capacidade de adaptação e permanecemos resistentes às mudanças dos mercados.

A crescente intensidade do conhecimento na nossa vida, é expressa na passagem do poder físico e destreza para o processamento e avaliação de ideias, da manipulação de materiais para os símbolos, da acção para a mente.

Temos de dizer Adeus à “economia do conhecimento” e dizer Olá à “economia criativa “. – Gary Hamel

in Jabaldaia's Blog

Monday, September 20, 2010

Cidades Criativas 3.0


O conceito "Cidades Criativas" resultou da emergência das novas tecnologias e de um novo tipo de economia assente na criatividade e inovação.

Constatou-se que certas cidades, mais do que outras, tinham a capacidade de atrair empresas e pessoas criativas e inovadoras. Essa capacidade prendia-se então com um conjunto de condições ambientais gerais que foram descritas sucintamente pelos três T's propostos por Richard Florida, a saber, Talento, Tolerância e Tecnologia.


Neste sentido, uma Cidade Criativa implica uma população residente com um alto nível educacional, boas universidades, uma comunidade diversa, intensa dinâmica cultural, qualidade de vida, vida boémia e as mais avançadas infraestruturas tecnológicas. E, claro está, tudo em escala significativa. Ou seja, o conceito é sobretudo um roteiro que só muito poucas cidades no mundo podem aspirar percorrer no curto prazo.

Esta perspetiva é naturalmente pouco animadora para cidades de média dimensão ou onde faltam algumas das componentes consideradas essenciais. Basta dizer que, em boa verdade, em Portugal não existe nenhuma cidade a que este conceito original se aplique. Nem Lisboa.


Daí que tenham surgido adaptações mais abrangentes. Ou seja, propondo-se uma versão 2.0 destinada a pequenas e médias cidades. Perante a crise geral o sucesso tem sido garantido. Nestes últimos anos Portugal encheu-se de Cidades Criativas. Mas os resultados reais na economia são parcos.


Sobretudo porque se tem confundido o desenvolvimento de uma economia criativa com a criação cultural, em si mesma, que é uma coisa muito diferente. Ou seja, a cultura criativa inicial, assente na economia digital e no design, transformou-se num mero incremento de manifestações culturais, de tipo artístico, normalmente centralizadas pela própria gestão das cidades. Em suma, muitas Câmaras imaginaram que as suas cidades se tornariam criativas pelo simples facto de oferecerem mais espetáculos e exposições.


Em Portugal é aí que estamos. Nunca se inaugurou tanto Museu, tanto Centro Cultural, nunca se viu tanta exposição e tanto concerto. Nunca a criação cultural dependeu tanto dos dinheiros públicos e das decisões de burocratas. Em consequência, nunca a criatividade artística foi tão dependente, tão pouco livre e tão conservadora. E, já agora, nunca se desperdiçou tanto dinheiro necessário para impulsionar uma verdadeira economia criativa.


É por isso que é preciso pensar numa versão 3.0. Que possa aproveitar o modismo, mas num caminho mais promissor.


Deixando de lado a sempiterna questão do ensino - que apesar de muita crítica avulsa tem vindo a melhorar por via do aumento da qualidade e da população estudantil -, é evidente que faltam nas nossas cidades as condições de base para que os jovens possam desenvolver projetos de criatividade e inovação empresarial. Não se trata de mais dinheiro, mas de condições tecnológicas.

Em vez de gastar fundos em mais centros culturais e museus da rolha, as autarquias deviam apostar nos centros de criatividade, através da disponibilização gratuita de espaços para encontro, cooperação e produção. Algo do tipo dos já conhecidos Fab Labs, pequenas fábricas do fazer criativo, ou centros para instalação de pequenas empresas, ateliers e projetos dedicados à criatividade e inovação, como é o caso da LxFactory em Lisboa (ainda que esta de iniciativa privada).


Em particular, os Fab Labs têm-se destacado como um meio de promover a economia criativa. Trata-se de pequenas oficinas com equipamentos de base digital onde qualquer jovem, ou pessoa, pode desenvolver gratuitamente os seus projetos. Neles encontram-se máquinas de impressão, corte, prototipagem, modelação 3D e outras ao serviço da imaginação e da criatividade de cada um. E servem também para encontro, trocas de informação e sinergia, fundamentais para o avanço do conhecimento individual ou de grupos. A interação é aliás a base da evolução.


Assim, a Cidade Criativa 3.0 não é tanto aquela que exibe muita criatividade, mas sim a que gera as condições tecnológicas e ambientais para que a criatividade possa emergir e desenvolver-se.

in Jornal de Negócios, por Leonel Moura

Friday, September 17, 2010

Alqueva, nas terras do Grande Lago


Água a rodos, menires e antas milenares, vinhos notáveis, património a cada esquina, paisagem de cortar a respiração e, sobretudo, a vida em câmara lenta. O Alqueva, o maior lago artificial europeu, é um dos segredos mais bem escondidos da Europa, onde os portugueses atentos começam a apostar como destino de férias alternativo.

«ESPEREMOS que não continue a dizer-se daqui a dez anos que o Alqueva tem potencial», diz para princípio quente de conversa Jorge Vieira, 40 anos, director da Herdade do Sobroso. A voz de Jorge é crítica, lúcida, mas ainda apaixonada. Pergunta-se: o que mudou na paisagem, na marca Alqueva, na herdade, neste último ano em que o Alqueva entrou na moda e o Sobroso foi considerado um dos melhores lugares de pernoita da região? «Para já há mais gente, isso nota-se. Mas a procura está mais orientada para a calma do Alentejo e do Sobroso do que para o Alqueva. Tem o potencial de que toda a gente fala mas, tirando casos pontuais, ainda não saiu disso. Por exemplo, há muito pouca oferta de actividades na água, que é o que as pessoas procuram. Vem-se cá uma, duas vezes, e esgota-se o assunto. As actividades são irregulares e a maioria amadoras. Não há praias fluviais ou não passam da declaração de intenções. Os barcos de cruzeiros ou carreiras são escassos. Os percursos são monótonos. O comentário mais comum dos clientes repetentes é que quase nada mudou. No caso dos passeios, poderá repetir-se o percurso com originalidade se se vier numa altura diferente do ano, porque a paisagem muda. De resto, a oferta é pouca e muito concentrada neste período do Verão.»
Pode dar-se o caso de um dia (domingo, 1 de Agosto), no pleno das férias, não haver ninguém disposto a trabalhar. As estruturas não acompanham a vinda das pessoas. E o interesse em desbravar, que é muito. Ouve-se então o insólito. «No último ano, abriu a casa de apoio à barragem com três sanitários. Já agora, o paredão é o lugar mais visitado da parte sul da barragem, junto com a Amieira. A norte é Monsaraz. Mas já fecharam a casa do lado de Portel, mais as estruturas de apoio, o café, a loja de produtos regionais. Durante meses não houve nada e agora abriu-se outra do lado de Moura.»
No Sobroso estão hospedados por estes dias Jorge Megre e Paula Barros, um casal de Braga «em trânsito». Desconheciam a «paisagem deslumbrante» do Grande Lago, onde nada há que incomode o olhar. Na hora da despedida olharão para o Alqueva como uma nova realidade de férias prolongadas. «Viemos nas palavras encantadas de amigos que já tinham repetido. Decidimos experimentar, antes de seguirmos viagem [vindos do Algarve]. Nunca nos tinha ocorrido o Alqueva», dizem. Depois da «estada sublime» estão certos de que bisarão (ou trisarão), apenas com a ressalva de que será «numa altura menos quente, na Páscoa ou no Outono, em que até a forma de dormir muda». Sublinham ainda que as terras do Grande Lago, além de serem magníficas de horizontes, têm repastos de excelência. «Quando viajamos vamos sempre atrás da gastronomia, sobretudo a portuguesa. Esta região puxa muito ao palato», diz Jorge, de mão na barriga. «Depois, julgávamos que era um calor insuportável o dia todo, mas a barragem trouxe noites amenas e brisas apaixonantes.»
De todas as maravilhas possíveis e imaginárias do Alqueva, «a paz» é a eleita. Para os filhos, é igualmente uma oportunidade de conhecerem a História de Portugal ao vivo, «aquilo que o Algarve (soterrado no betão) dificilmente dá à primeira vista». Em três dias fizeram a volta «maravilhada» pelas relíquias de Monsaraz, Mourão e sobretudo a cenográfica Moura, nas palavras de José Saramago «muito mais sala de receber do que lugar de passagem». Lá viram, como recordou o escritor, «o belo portal trilobado da igreja matriz, com o seu arco conopial que lembra o portal de Penamacor, e o cortesão, nada eclesiástico balcão de dossel com os seus colunelos jónicos e ferros batidos». Obra do mestre de pedraria Cristóvão de Almeida que séculos depois continua a encher de majestade o largo da aldeia.
O único contratempo deu-se na saída de domingo, «para um almoço tardio», que por falta de lugares abertos obrigou a bater retirada de regresso ao Sobroso. «Tornou-se literalmente um almoço tardio. Almoçámos às cinco da tarde, graças à simpatia da dona Josefa.» O exemplo dá razão ao empresário hoteleiro, que alerta: «Quem tem negócios devia pensar que os turistas não vêm a horas certas, muito menos numa região onde se defende a marcha lenta e o coma devagar. Vai demorar algum tempo até as pessoas se adaptarem.» Tirando os projectos grandiosos, como o do empresário José Roquette – que vai de vento em popa e já tem uma mão-cheia de buracos de golfe esculpidos no montado da herdade das terras nobres do Roncão d’El Rey (primeira fase do projecto Parque Alqueva com abertura prevista para o primeiro trimestre de 2012, que contempla um hotel de 250 camas, um wine club e um campo de golfe de 18 buracos) –, as vilas e aldeias à volta de Alqueva vivem de negócios familiares e amadores, com o bom e o mau que isso implica. Ou seja, como diz o casal em uníssono, «é preciso usar o potencial». Sobre o Alqueva, Paula ensaia a teoria futurista: «Quem tem poder económico e procura um lugar com qualidade e discrição, encontrou aqui um paraíso – que só não interessa a quem queira fazer coisas mais mediáticas. Olhei para aqueles ciprestes e vi a Toscana. Tem afinidades na ligação da gastronomia com as casas. Tem pelo menos o potencial para ser vendido no mundo por aí. Isso e mais a força da água.»

As aldeias ribeirinhas
Quem salta de aldeia em aldeia, Alqueva, Campinho, Estrela, Luz? na esperança de achar pernoita mais modesta, alternativa aos turismos rurais e hospedarias finas, depressa conclui que é como achar agulha em palheiro. Na Estrela, por exemplo, apontada por todos à uma como das mais belas aldeias da região, um tesouro escondido da ruralidade ribeirinha, há um único endereço para aluguer de ocasião. Chega-se lá de boca em boca, à falta de mapa, placa ou letreiro explicativo. É o senhor Diogo Vitorino, 80 anos estimados e tisnados, à soleira do seu postigo, quem anuncia uma «casita acolá mais abaixo», pertença do senhor Alexandre, onde parece que se alugam quartos ou a casa inteira, conforme as necessidades. Antes de descer à casa debaixo de impiedosa canícula, o melhor ainda é tirar as teimas no restaurante Sabores da Estrela, o inesperado gourmet do outro lado da rua. São horas de descanso, mas a proprietária, Maria José, «moça da terra», saberá informar-nos de vagas.
A casa da Estrela é a morada solitária onde é possível um viajante instalar-se a preços do antigamente, e experimentar os novos prazeres do velho rio Guadiana. Na parede, pode ler-se a recomendação do site www.alquevacasasdecampo.com, um projecto que era para ser plural, mas acabou por ficar restrito a uma casa. Alexandre Firmo, outro homem da terra, pretendia alargar o negócio. A especulação imobiliária e a crise trocaram-lhe as voltas e ficou-se pelo casinhoto na Rua do Meirinho, n.º 16. A casa, porém, é um sortido de encantos. Um piso térreo sem janelas para a frente, de telhado a rasar a cabeça e paredes caiadas a estalar de alto a baixo com a força do calor. Passa-se a porta e desembocamos noutro mundo, um salão de tijoleira fresca, amplo e luminoso, de vista escancarada da barragem no final do alpendre e de um jardim resguardado por um muro e arvoredo de seiva árabe. Pode dormir-se do lado de fora, ao relento, num dossel de palhas sob a lua e a sombra do olival secular. Oitenta euros por noite é quanto vale o remanso em época alta (sessenta euros de Outubro a Maio).
Na aldeia, o Sabores da Estrela é o exemplo de sucesso, invariavelmente cheio, faça chuva ou faça sol. «Temos reservas até Novembro», confessa a proprietária. O achigã frito com migas de tomate e a varanda escandalosa sobre a barragem podem explicar parte do sucesso (em particular nas noites de Lua cheia), mas Maria José sabe que muito do êxito se justifica por haver fraca concorrência. «No perímetro das aldeias ribeirinhas contam-se pelos dedos os restaurantes recomendáveis.» Dos piropos que por ali vão deixando, o mais sonante foi de um casal de espanhóis, visita recente. «Estava tudo como no guia da revista. Não houve publicidade enganosa.»
Nos antípodas da sofisticação está o Barzeco, uma petiscaria rústica nas encostas de Mourão debruçada sobre a esteva e a água onde se come o melhor peixe grelhado do Grande Lago (e se bebe a sangria mais encorpada). Tudo por culpa do amor nos preparos da alcobacense Ana Vinagre, 49 anos, para aqui migrada com o companheiro Zeco, que «frequenta o paraíso há 25 anos». A história do Barzeco, um dos lugares mais carismáticos da barragem, é de final feliz. Mas não teve vida fácil. Ana Vinagre recapitula: «Começou por ser um quiosque de bebidas e sardinhadas (já com as terras alagadas). A Câmara de Mourão levantou logo problemas, mais os ambientalistas e os inspectores. Implicavam com tudo. Nós só alugámos a terra e queríamos fazer coisas. Temos as coisas certinhas, as licenças todas.»
Ana, que «não tem vocação para estar parada», usou a verba do fundo de desemprego e da Segurança Social e «fez-se à vida». Quem for hoje ao Barzeco (só aos fins-de-semana e sem pagamentos com cartão), o mais certo é vê-la entre o assador, o molhe e as mesas dos convivas, numa azáfama de abelha-rainha. No Barzeco tudo é improviso e descontracção, das tábuas de madeiras de cofragem do chão, às regas de aspersão no lugar de ventoinhas de tecto, ou as cabeceiras de camas antigas junto com comedouros e bebedouros e pedras de mós (e pias baptismais) para o momento do digestivo ou da sesta proverbial. Ana é uma contadora de histórias, e das muitas que chegam à mesa a mais insólita é a do casal que ali veio de fim-de-semana, prolongou a estada por 15 dias e acabou por comprar casa no mês seguinte. «O Alqueva tem íman.»
Nas redondezas do monte há eiras ardentes, searas ceifadas e campos de ninguém polvilhados aqui e acolá de antas e menires. O cromeleque do Xerez, trasladado do regolfo do Alqueva para perto do Convento da Orada (aldeia de Telheiro, Monsaraz), será o mais admirável, com os seus cinquenta menires datados de entre o início do quarto e meados do terceiro milénio a.C. Outros monumentos haveria a citar, como o menir da Belhôa, à entrada de São Pedro de Corval, ou o menir do Outeiro, também conhecido por menir no sítio do Penedo Comprido. O menir da Rocha dos Namorados ou a pedra do Casar é a atracção mais cobiçada de Corval. Segundo as leis das lendas, as moças da terra devem lá passar na segunda-feira de Páscoa e, viradas de costas, atirar-lhe uma pedra para cima. Caso a pedra resvale é porque há boda daí a um ano.
Os alojamentos mais adequados nas terras do Grande Lago são os turismos rurais que juntam ao serviço de categoria as habitações genuínas alentejanas. O Monte Branco, da «alentejanesa» (misto de alentejana com inglesa de Hereford) Jane Doody, 64 anos, é talvez o exemplo mais feliz. «O Alqueva, além de trazer noites mais frescas, fez-nos puxar pela cabeça», diz Mrs. Doody, que descobriu Portugal irreversivelmente há 36 anos. As casinhas de traça típica e a atmosfera de hacienda mexicana inspirada em Frida Kahlo fazem do lugar uma das moradas mais cobiçadas dos sopés de Monsaraz. Ao entardecer no monte, seja na piscina ou derramado nas espreguiçadeiras, o viajante enamorado pelos céus altos e os aromas bravios terá um exclusivo de natureza alentejana no esplendor da sua volúpia (do aborrecimento).

A Marina da Amieira
Outro dos casos de sucesso é a Marina da Amieira, endereço do restaurante panorâmico e ancoradouro dos já famosos barcos-casa, que ganharam fama graças ao apresentador Manuel Luís Goucha, um cliente regular do Grande Lago. «É facto que o negócio cresceu. Temos dois negócios: a Amieira Marina, com os barcos-casa, a restauração, e depois temos a Ges-Cruzeiros. Os cruzeiros estão abaixo das expectativas. Em contrapartida, os barcos-casa estão a superar todos os objectivos mais optimistas. No ano passado conseguimos quatrocentas reservas. Tínhamos posto a meta das quinhentas para 2010, tendo em conta que mantemos o número de barcos. Ainda Agosto não tinha começado e já estávamos a oitenta reservas do total do ano passado», diz o administrador Eduardo Lucas.
Comentários menos favoráveis no usufruto das terras do Grande Lago? «Ouve-se muito o lamento da falta de praias. Não é fácil nem barato implementá-las. A erosão continuada poderá vir a criar sedimentos, areia, mas essa demorará muitos anos a fixar-se. Pode colocar-se lá a areia, mas o nível da barragem, se bem que não flutue muito, é variável. Ou seja, aquilo que constitui hoje uma praia, se o nível da água baixar lá se vai a praia. Os espanhóis tentaram em Cheles mas não funcionou. Fazer uma praia fluvial com alterações de nível implica uma actuação permanente. A água sobe e há um lavar da areia, a água desce e não está lá. Não pode ser uma junta de amigos a resolver o problema. É preciso uma autoridade por detrás.»
A queixa mais ouvida por toda a parte é a das querelas entre poderes que limitam a evolução das terras do Alqueva. «Infelizmente tenho de concordar», diz Eduardo Lucas. «Não falamos por nós, que estamos de boas relações com o concelho de Portel, o nosso anfitrião, de quem temos um apoio significativo. A nossa actividade expande-se por todo o lago e aí gostaria que houvesse uma maior colaboração e uma visão das possibilidades que traz esta actividade para cada uma das aldeias. Ou seja, cada entidade envolvida, presidente de junta, câmara, associação? deveria investir no sentido de dar condições. Assegurar bons cais, por exemplo.»
Este ano, o lago passou a ter esses cais em Monsaraz, na Estrela e na Amieira. Mourão e Campinho também melhoraram as estruturas. Prevê-se que em 2011 estejam prontos os de Alqueva e do núcleo da barragem e da aldeia da Luz. Lucas recorda: «Essa falta de condições de acesso pela água é limitativa para todos. Neste momento, para pena nossa, desaconselhamos os nossos clientes a irem à aldeia da Luz, porque o cais não reúne condições de segurança. Ora, é lá que está um dos melhores museus da região. Depois, não é só lá meter um cais. É preciso pensar na recolha de lixo, na informação sobre a aldeia, para que quem chegue pela água saiba o que pode ver. Que leve o cliente a pensar duas vezes, que o seduza. Há evolução, mas achamos que é possível dar mais e melhor.»
Existe uma Associação de Promotores do Alqueva, a APA. No entanto, há uma lacuna de organismos com interesses comuns no lago, além dos negócios. «Em tempos foi criada a Gestalqueva, uma empresa em que o capital está dividido entre a Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas do Alqueva (EDIA) e as câmaras à volta do lago, que com toda a lógica faria a gestão turística, a promoção, que ajudaria as empresas a instalarem-se. A Gestalqueva foi sendo esvaziada de poder. Tal como a EDIA, foi encolhida da sua competência turística. Começou a ser dividida e hoje em dia não se sabe quem está no terreno e pode fazer alguma coisa ou quem tem os meios. Para ter uma ideia: no sentido de promovermos as melhorias dos cais, fizemos uma pergunta elementar à Gestalqueva é às câmaras. Digam-nos de quem são os cais que existem ao longo da barragem, para que possamos dialogar. Acredita que ainda não obtive resposta? A pergunta tem um ano e meio…»
Por outro lado, a Associação dos Interesses Transfronteiriços do Alqueva, da qual fazem parte todos os municípios portugueses e espanhóis, tem um projecto global, com restaurantes, estradas… mas encontra-se igualmente por implementar. «Já viu o desperdício que é o Guadiana [o barco de cruzeiros], que leva 120 pessoas de cada vez e que podia atracar nos cais dessas aldeias sem ser só para ver as vistas? Ao fim-de-semana transportamos facilmente quinhentas pessoas. Podia haver uma rota gastronómica nas aldeias, ou de vinhos. O potencial continua em aberto», desabafa Lucas. «O turismo fluvial é anual, não se limita a um par de estações. Essa é outra das grandes mais-valias», resume.
A Amieira Marina aumentou entretanto as suas parcerias com a Livre de Amarras, no sentido de implantar a vela e uma cultura náutica inexistente. Fez ainda uma parceria com a Brake, para ocupação de tempos livres, com moto-4, slide, rappel o geocatching. Criou também, com a Babika, uma nova parceria na área do speedboat, da banana e da bóia rebocada. Por último, a parceria com a Sudeurosky, uma empresa já estabelecida em Portugal, encontrou na Amieira as condições ideais para poder evoluir. Trata-se de uma empresa que faz estágios de esqui, wakeboard e babyski (para crianças a partir dos 4 anos).

Polémica com as águas de Espanha
Desde o fim de 2008 que foi proibida a navegação pelos espanhóis na parte espanhola do Guadiana internacional, acima da vila de Monsaraz. «Desconhecíamos a situação caricata até termos dois clientes multados. Verificámos que tinham saído normas internas da Confederação Hidrográfica do Guadiana que proibiam a navegação e tentámos o contacto, mas fomos logo alertados que de nada adiantava. Era cumprir e calar. Isto impede obviamente a atracagem no lado espanhol, o que torna a situação ridícula, pois os espanhóis, mais avançados do que nós, anteciparam-se e construíram logo cais em Cheles, em Vilarreal, em Vilanueva del Fresno.» Agora esses cais são ilhas. Os espanhóis (como foi dito à imprensa espanhola pelo próprio alcaide Angel Garcia) teriam todo o interesse em ter lá portugueses. Afinal os clientes vão almoçar, às compras? Graças àquela lei, os clientes deixaram de ir ou vão por sua conta e risco.
Quem não arrisca é a Gesalqueva. «Com um barco de cruzeiro carregado de centenas de pessoas não vamos arriscar-nos a um incidente internacional. Se a questão é a segurança, basta que façam como nós fizemos: colocámos bóias nas zonas perigosas. Não há nenhum registo de acidente. Se a questão tem que ver com Olivença ou não, desconheço. Se tiver é caricata e constrangedora. Tanto mais que estivemos presentes lado a lado na última Bolsa de Turismo de Lisboa, com os espanhóis a promoverem o Alqueva com grande pompa, até mais do que nós, sendo que a nossa área navegável é muito maior. Abordámo-los lá e os próprios dinamizadores desconheciam o que estava a passar-se e as normas em vigor.»

As barcas da fantasia
Mário Ramalho, 40 anos, oleiro de ofício em São Pedro de Corval, marinheiro de ocasião, é um dos raros barqueiros que se faz solitariamente às águas do Alqueva para «passeios turísticos e piscatórios». Este é o terceiro Verão na faina e «a coisa tem vindo a ganhar forma», diz à NS? no ancoradouro de Monsaraz, onde estaciona o barco. Das 10h00 às 18h00, todos os sábados e domingos, a barca do Alqueva Cruzeiro não pára. De semana, abranda o movimento, mas «felizmente roda». O oleiro-marinheiro lamenta apenas as restrições «absurdas» nas águas espanholas, a falta de praias ou que não possam fazer-se refeições a bordo, e que haja magra oferta nas aldeias. «Se não se trouxer o farnel passa-se fome.» Depois, frisa, «é uma pena ter-se esta água toda e não poder ficar aqui a dormir e a desfrutar. O turismo deve ser controlado para não abandalhar, mas há coisas que devem fazer-se. Parques de campismo, por exemplo, agora até se fazem ecológicos.»
Enquanto falamos com os pés a dar e dar na borda da água tépida chegam levas de gente como os chineses Emi e as suas duas filhas sino-alentejanas que chamam ao Alqueva «bom bom»; um jovem casal nortenho em disponibilidade amorosa em fuga «ao crowd do litoral»; pescadores de achigãs, o peixe mais estimado da barragem; e um paradigmático elenco de Moura que arma o toldo, dispõe o recheio de enchidos da marmita e ajunta-se numa animada rodinha para um piquenique sobre as urzes bravas e o cascalho.
«Tiraram-nos a praia da Carraça. Temos de nos amanhar com o que há», diz, jocoso, o chefe da casa. E a provar de que «não se está nada mal» arreia o calção e atira-se em mergulho encarpado (de tanga cintada) às águas mornas, mansas e desertas da barragem.
Passa então no molhe Fernando Nunes de Carvalho, 63 anos, assíduo da barragem todos os fins-de-semana e «alquevista» imparável. «Toda a gente dizia que isto era uma asneira. Agora é o segredo mais bem escondido da Europa», proclama alto e bom som, antes de soltar amarras. Fernando faz questão de nos levar a bordo do seu barco SunDecker, para desvendar o antes e o depois, e os prós e os contras do Grande Lago – incluindo nos prós o facto de não haver limite de barcos, excepto no tamanho, sete metros de calado. Fernando é do tempo em que se fazia o Alqueva do Guadiana a cavalo e se atravessava o rio a pé em anos de seca. Participou na «Despedida do Guadiana», um raide organizado por José Megre, o falecido viajante das setenta partidas. «Era uma maravilha, mas não tenho saudades. Era outra coisa. Agora faço coisas que nunca faria. Como levar os meus netos a ver ilhas desertas ou grutas cheias de água que antes eram abrigos de pastores e de que já ninguém conta a história. Em Portugal há um par de lugares assim. O outro é a barragem de Moncorvo, no rio Sabor. Digam-me um lugar no mundo onde se pode encostar o barco e fazer um piquenique à sombra de uma oliveira ou andar de porto em porto a fazer rotas de castelos milenares?»



Saramago e o Alqueva

«Do morro fortificado de Monsaraz desceu à planície. Isto é como estar fora do mundo. Os leitos das ribeiras são correntes de pedras requeimadas de sol, chega-se a duvidar que alguma vez levem água, tão longe ela está neste momento, sequer, de simples promessa. Por este andar, o viajante, se o espremem, não deita gota. Vai assim, outra vez entorpecido, quase ao diabo dando o viajar, quando de repente lhe aparece um rio. (?) Por sim, por não, consulta o mapa, a ver se nestas latitudes se assinala curso de água permanente. Cá está, o Guadiana! Era o Guadiana, aquele mesmo que bravio se lhe tinha mostrado em Juromenha e que depois abandonara. Amável Guadiana, Guadiana delicioso, rio que do paraíso nasces! Que faria qualquer viajante, que fez este? No primeiro sítio onde da estrada facilmente se chega ao rio, desceu, num resguardo se despiu e em dois tempos estava na água clara e fria, parece impossível que exista uma temperatura assim. Por mais tempo do que à viagem convinha esteve refocilando na límpida corrente, nadando entre as fulgurações que o sol chispava na fluvial toalha, tão feliz o viajante, tão contentes o Sol e o rio, que eram três num prazer só.»
in Viagem a Portugal («A grande e ardente terra de Alentejo»)



Pedaço de história

A vila de Monsaraz está implantada num esporão rochoso, de onde se avista uma paisagem a perder de vista. A origem do nome é desconhecida, mas mon-xarás, ou «monte-xaras» (monte das estevas) é uma imagem poética adequada à história e encantos do lugar. Terra milenar, de romanos e árabes, tornou-se altiva pela fronteira. Em 1157, Geraldo Sem Pavor, conquistador de Évora, tomou-a de assalto aos mouros, que logo a recuperaram. Só em 1232 Monsaraz passou a fazer parte do reino de Portugal, graças aos cavaleiros templários, futuros senhores da vila. D. Afonso III atribuiu-lhe a primeira carta de foral, onde se estabeleceram os limites do primitivo termo medieval bem como das terras reguengas, isto é, as que pertenciam ao rei – daí o nome da terra vizinha, Reguengos de Monsaraz.



Antes e depois da barragem

O Guadiana encontrou à passagem pela serra de Portel um dos seus maiores obstáculos. Foi neste ponto de contacto que o maciço rochoso mais resistiu ao ímpeto do rio, resultando dessa luta titânica uma cicatriz geológica, aberta em vale profundo. Este acidente natural permitiu viabilizar a construção de uma barragem, denominada de Alqueva, por deferência toponímica à aldeia mais próxima. Os primeiros estudos para construir uma grande obra hidráulica que represasse as águas do Guadiana datam dos anos cinquenta do século XX. Uma tal obra permitiria alimentar o chamado Plano de Rega para o Alentejo, condição fulcral para contrariar a desertificação e o subdesenvolvimento económico da região. Só meio século mais tarde nasceria o Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva, concluindo-se o corpo principal da barragem em Janeiro de 2002. O paredão, com uma altura de 96 metros, formou um regolfo de 250 quilómetros quadrados, sendo por isso considerado o maior lago artificial da Europa. Entre os inúmeros aproveitamentos do novo caudal de água destacam-se o Sistema Global de Rega, que irrigará 115 mil hectares de terra através de dois mil quilómetros de condutas, e a produção de energia eléctrica, cuja potência permitirá cobrir as necessidades de consumo de todo o distrito de Beja. Junta-se a este potencial a regularização do Guadiana, o abastecimento público de água e a potencialização de expectativas empresariais, sobretudo na área do turismo, em que por agora se focam todas as atenções.



Parque Alqueva

Reconhecido como projecto de Potencial Interesse Nacional (PIN), o complexo turístico integrado no Parque Alqueva será constituído por três herdades situadas entre Reguengos de Monsaraz e a albufeira de Alqueva, representando, na primeira fase do projecto, um investimento total na ordem dos cinquenta milhões de euros. O Parque Alqueva vai ser construído ao longo das próximas décadas numa área de 2074 hectares, no concelho de Reguengos de Monsaraz, pela Sociedade Alentejana de Investimentos e Participações (SAIP), liderada por José Roquette. O Parque Alqueva, um investimento de cerca de mil milhões de euros, foi o primeiro dos três empreendimentos turísticos projectados para o concelho de Reguengos de Monsaraz a iniciar as obras. A Herdade do Barrocal, a cargo do grupo Aquapura Alentejo, com custos estimados em 140 milhões de euros, e o Vila Lago Monsaraz – Golf & Nautic Resort, da Aprigius – Companhia de Investimentos Comerciais, prevê um investimento total de 170 milhões de euros.



Entrevista
Sofia Ginestal Machado

Sobroso: um caso de estudo

Sofia Ginestal Machado é a embaixatriz da Herdade do Sobroso, uma referência no turismo do Alqueva, em Marmelar, no limite sudeste das terras do Grande Lago. Aqui podem fazer-se winetours, um giro desde a poda à vindima (procurado, sobretudo, a partir de meados de Agosto). Há visitas guiadas à adega que culminam com uma prova simples ou servida de queijos e enchidos da região. De resto, é uma paisagem sublime de quase dois quilómetros lineares defronte do Guadiana, com a herdade aos pés da barragem. Os visitantes podem instalar-se no edifício principal, na Casa da Quinta, composta de cinco quartos duplos, ou numa das outras tantas casinhas geminadas, viradas para a vinha e o montado. Faz-se tudo: passeio de caiaque, bicicleta, caça e pesca. Mas o predicado mais cobiçado do Sobroso, e que traz clientela de toda a Península Ibérica, é a cozinha inspirada da «chefa» Josefa. O cardápio contempla javali no forno com migas de espargos, sopa de cação, açorda de tomate e coentros ou a cobiçadíssima galinha do campo com cogumelos. O vinho é o exclusivo da casa, e ainda bem.

Podemos dizer que o Alqueva já é uma alternativa de férias para os portugueses?
Sim, é uma região fantástica com um grande potencial turístico. Barragem, desportos náuticos, boa gastronomia, bons vinhos, sol durante todo o ano, excelentes acessos, relativamente próximo de dois aeroportos internacionais (a 1h30 de distância).

Trata-se de uma alternativa só para uns happy few ou tem condições para oferecer turismo «para todas as bolsas»?
Julgo ser uma alternativa para todas as bolsas, nem que seja para uma escapadela de dois dias.

Que argumentos têm para convencer um veraneante a ir para o Alqueva em Agosto?
Oferecemos tranquilidade, um serviço personalizado, um encontro com os sabores tradicionais do Alentejo e com o mundo fascinante dos vinhos, e praticamente uma herdade com 1600 hectares em exclusivo para o cliente, uma vez que a nossa lotação máxima é de pouco mais de vinte pessoas.

O vosso core business é o turismo enológico?
As três principais valências da Herdade do Sobroso são, por esta ordem: produção de vinhos (tinto/branco/rosé), das gamas Herdade do Sobroso e Sobro; country house e turismo cinegético.

Qual a taxa de ocupação da herdade em época alta?
Cerca de noventa por cento.

in NS